repentino. >> August 22, 2008
In Contos

Não que seja um ressentimento, não, é menos que isso, é uma indiferença total. Uma entrada pela porta, um bom-dia casual e causal, tão automático, um suspiro longo e demorado. Os olhares eram trocados, mas olhavam para o absoluto nada, não era sobre essência que existiam, mas sim sobre forma. E a forma também era deformada, apesar de ainda guardar um resquício de lembrança longínqua.
Não sei quando deixei de amar (não há você, nada transita, tudo sempre foi), simplesmente. Mas um dia você sorriu para mim e eu não quis achar graça. Veja bem, eu achei. Mas não quis. Uma força dentro de mim dizia que não havia nada do que rir, enquanto meu cérebro maquinava os músculos em uma expressão única de alegria. Perguntava-me, então, por que você havia dito aquilo. Por puro impulso da forma ou realmente pela essência? Mas talvez você não fosse tão mesquinho quanto eu…
Indefinível. Sei que é. De todas as razões, não consigo encontrar uma que seja real. Lembro-me do sorvete, lembro-me muito bem. Eu queria de morango, e você de flocos. Depois trocamos as casquinhas, porque queríamos compartilhar até mesmo o gosto por sorvetes. Sabe de uma coisa? Eu nunca gostei de flocos. Nunca. E quis cuspir naquele maldito preto e branco que você empurrou tão impetuosamente para mim. Mas eu comi, comi realmente achando aquilo delicioso, porque os sentidos estavam-me enganando. Você sabe, os sentidos enganam demais.
Depois, quando voltamos pelo parque, eu tive os olhos brilhando quando você começou a gritar que me amava, que me queria e que eu era, que eu era, que eu era o amor da sua vida. Eu só conseguia gritar, que horror!, Você também!. Vamos nos casar? Vamos! Que grande idéia. E o que eu pensava sobre casamento, sobre ser-só, sobre a vida foi massacrado pelas suas ideologias altamente influentes. E banais. Sempre as odiei. Nunca pretendi casar-me com você.
Mas casei; foi pelo piano, unicamente, tenho certeza. Não posso negar o quanto amei e ainda amo os seus dedos corriqueiros, a melodia interminável e o fato de você não olhar para mim enquanto tocava. Você olhava para o instrumento, como se ele o fosse nutrir, como se fosse o porquê de estar vivo. Naqueles momentos, eu desexistia para você, e isso me fazia livre. Livre em mim mesma. Pois sentia falta de não ser compreendida e de ter alguém a quem não compreender.
Na verdade, talvez nunca tenha amado. Porque era dificultoso sentir, abraçar, possuir saudades. Sentia dor física para poder sofrer pela ausência, entende? Procurava necessidades para dar sentido às coisas. Elas nunca tiveram sentido algum. Você estava sempre feliz ou sempre triste, era tão irritantemente extremo. Enquanto eu apenas era. E era, e fui e fiquei.
Eu não sei por quê, mas não estou afetada. Nem um pouco. Não consigo nem ao menos chorar. E isso, finalmente!, está-me abalando. Sempre chorava com os filmes, mas não com a vida. Juro que queria chorar agora, bater com a cabeça, vomitar durante uma semana escondida no banheiro. Depois ter que ir ao psicólogo.
Não sinto nada disso. E por isso acho que nunca amei. Era tudo mentira. Mentira, escutou? Mentira. Acho que estou repetindo essa palavra para mim mesma há muito tempo. Estou quase inteiramente convencida.

Não se intrigue. Se eu não choro pela vida, por que choraria pela morte? Talvez esteja aí a minha resposta.


Sonhado por Priscila Blake às 4:16 pm.
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I e II. >> August 16, 2008
In Contos

I

amanheceu no mar
e sempre lá permaneceu
banhava-se nas águas azuis,
verdes e cinzas
e dormia na areia serena
das mil e uma conchas.

via o céu todos os dias
translúcido, vivo, relutante!
e tinha vontade de subir até ele,
namorar com suas estrelas,
e cantar com a lua
as infinitas serenatas de tristeza.

mas o mar, zeloso e imponente,
segurava a sua Iemanjá,
menina de suas pérolas,
namorada de suas ondas fabulosas.
não! durma, banhe-se, navegue:
o voar não existe.

e a sereia das mil pernas
teve seu amor pelo céu naufragado,
e das profundezas
não mais conseguia ouvir
a lua cantando sua solidão.

II

em um dia entre tantos,
uns bemóis invadiram a imensidão do oceano
e seus cabelos, membros e olhos
foram atraídos para a superfície
onde havia um violino
a suplicar juras de amor.

de todas as notas possíveis
ela apaixonou-se pelo si,
e se pudesse fugir
fugiria com ele para o mundo do sol.

mas o mar, bruto e horrendo,
afogou as notas,
as cordas e o violino,
que desafinou sua sinfonia,
desafiando a fúria dos amantes!

e a sereia quebrou as ondas
salvou o instrumento de sua paixão
e fez o mar adormecer,
em um contenido de sofrimento.

construiu uma ponte de partitura
e fez da clave de sol sua escada
e das notas os degraus
de sua liberdade!

A ponte levava para a lua,
seu amor eterno e sem luz,
Seu novo lar até o anoitecer
Onde tocaria melodias
sobre o azul do mar.


Sonhado por Priscila Blake às 8:27 am.
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Por entre a fumaça. >> August 10, 2008
In Contos

- Qual o gosto da vida? - a doce menina perguntou e mexeu nos enrolados cachinhos que caíam por seus ombros.

E ela começou a pensar, a pensar, a pensar no gosto da vida. Ergueu as sombrancelhas, mordeu um pouco os lábios. O gosto da vida? Queria que a resposta resumisse-se a uma bala de hortelã. Mas a vida, a vida, a vida, como já dizia Cecília, é muito mais do que isso. Fechou os olhos profundamente, tão veloz que sentiu a luz misturar-se com escuridão. Lembrava-se da brisa das manhãs de sábado que nunca mais havia vivenciado. Aquela sensação eterna de que tudo perdura, tudo. Mas hoje sabe que nada o faz. Que verdade mais relativamente absoluta!
Não, não sabia qual era o gosto da vida! Não sabia nem mais qual era o gosto da manhã e da tardinha. O que vinha em sua cabeça era uma caixinha de música tocando aquela melodia que sua avó costumava cantar antes de ir dormir… nada de gosto, apenas o som magnífico…

- Eu… não sei. - respondeu a mulher, de porte forte e seguro.

- O gosto da vida é hortelã, bobinha!- a criança sorriu sapecamente.

Ela piscou os olhos muitas e muitas vezes. Hortelã? Ela havia pensado nisso! E lembrava-se desse gosto, tão forte, tão puro, tão cheio de significado. Tantas manhãs de sábado, pegando a bicicleta, voando pelas ruas, apostando corridas. Manhê!, me dá um real pra “mim” comprar chiclé na padaria! E riu-se por dentro, com a lembrança da doçura com que sua mãe, já falecida, dava-lhe uma moedinha pelo final de semana inteiro.

- Moça, eu não sei… - a menina voltou com sua expressão indignada de interrogação. - Juro que não sei!

- Não sabe o quê, querida?

- Não sei por que o céu é azul.

Por que o céu é azul? Se fosse há 30 anos atrás diria que é azul porque as fadas jogam pó de anil das nuvens. E quando ele chegava na terra… ah, ah! Ele transformava-se em oceanos e as fadas em sereias. Hoje em dia sabia da explicação científica sobre reflexão e ondas, mas como ia explicar isso à menininha? Ela nunca entenderia nessa idade, não, definitivamente. Por falar nisso, ela lhe lembrava alguém de sua infância…
Poderia inventar-lhe uma estória, a sua estória fantástica e pueril!

- Bem… ele é azul devido ao pó de anil.

- Pó de anil?! - ela arregalou os olhos.

- Sim! É o pó que as fadas jogam das nuvens, colorindo o céu inteiro de azul. Jura que não sabia?

- Não… - ela pareceu realmente muito surpresa. - Você tem um pouco de pó de anil?

- Não, mas sei onde você pode conseguir muito - segurou um pouco a respiração e prosseguiu. - Quando o pó de anil desce até nós, ele forma os oceanos e as fadas tornam-se sereias.

- Então, quando encosto na água do mar, estou encostando no azul do céu? - ela pareceu maravilhada.

- Extamente! E talvez um dia possamos ver uma sereia!

Os olhos da menina bilharam profundamente. Suas mãozinhas eram de uma delicadeza profunda. A mulher olhou o relógio algumas vezes e começou a jogar milho para os pombos que estavam ali perto. A menina parecia impaciente para fazer mais perguntas, e a mulher parecia estar esperando alguém importante. Enquanto isso, os balanços da pracinha, vazios, balançavam sozinhos, solitários, empurrados pelo vento. Os escorregadores deslizavam a poeira da terra e as gangorras estavam equilibradas, sem peso em nenhum dos lados.

- Para que servem os países? - ela explodiu, como se não agüentasse esperar de curiosidade.

Essa era uma pergunta sem resposta. Porque, até hoje, ela questionava-se sobre isso. Não sabia e ponto. Queria que tudo fosse de todos e sem mais conversa. Mas o mundo precisa de fronteiras, de guerras, de economia. O ser humano cresce e quer o que é seu, como se realmente a posse existisse. Que falácia mais acreditada.
Sentiu o peso de sua respiração e de repente lembrou de suas responsabilidades. E quis lamentar-se, pois pareceu-lhe que seu cliente não viria ao encontro marcado. Precisava, portanto, ir embora.

- Os países não servem para nada, menina. Apenas para causar conflitos egoístas.

A menina mordeu os pequenos lábios. A mulher sentiu-se tão hipócrita por aceitar tantas coisas e ter deixado seus questionamentos de lado. Levantou-se, pegou sua mala e fez um carinho na cabeça da menina.

- Qual seu nome, pequeno anjo?

- Luciana - ao proferir a palavra levantou-se e saiu correndo, dando adeus com as mãos e o rabo-de-cavalo balançando.

A mulher teve seu coração acelerado. Pôs uma das mãos sobre seu cabelo cacheado, e passou os dedos sobre ele, enquanto via a menina desaparecer por entre a fumaça daquela tão conhecida rua, agora inteiramente quebrada para a construção de um viaduto.

Agora lembrava-se de onde conhecia o rosto daquela criança.


Sonhado por Priscila Blake às 2:52 pm.
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Circunscrição paterna. >> June 19, 2008
In Contos

Queria saber por quê. Um motivo, uma circunstância circunscrita.
Por que estava em frente ao espelho, escondido, vestindo-se como uma mulher, a maquiagem forte, o batom vermelho, as poses sensuais? E por que, alguns segundos após, sentia-se repugnado de si mesmo, cuspia em seu reflexo e começava a chorar?
Não sabia o que pensar, pois não sabia de mais nada. Apenas sentia o peso doloroso da consciência em cima de seus cabelos, deixados longos por motivos óbvios de gostos musicais. É claro que nunca se havia penteado os cabelos sedosos por horas seguidas, apaixonando-se por si mesmo a cada passada de pente, é claro, claro que não, simplesmente.

- Você não me pode impedir. Já tenho dezessete, o cabelo é meu. Quero-o assim.

E inicialmente fora por paixão ao rock. Admito. Ele queria parecer revoltado, queria conquistar umas meninas fáceis, queria ser, como todos o querem, diferente. Conseguiu-o. Usava uma jeans rasgada, com símbolos nada religiosos, apenas blusas de bandas estrondosas, óculos escuros finos e redondos e tinha uma tatuagem de uma adaga em seu pulso.
Seu pai nunca aceitara tal situação. Gritava, xingava, batia as mãos na parede. Seu filho parecia não importar-se. Ah, mas se importava! Muitíssimo. Aquilo tudo era apenas carência afetiva, de fato. Mas como as pessoas são cegas…
A situação agravou-se quando o lápis de olho e o batom negro vieram à tona. Seu pai agonizou. Todos os dias, sem falta, desde manhã até a noite jogava indiretas bastante diretas. Mas ninguém vive somente de olhares enviesados.

Chegou o dia em que, colossalmente, o homem explodiu:

- Mas tu é um gay de merda.
Um gay de merda.
Um gay de merda.
Tu não é meu filho, diabo!

O garoto riu-se. Gay, ora se fosse! Riu-se ainda por todo o dia e mais além. Na verdade, passou um mês inteiro rindo. E as acusações continuavam. O pai era impiedoso. Os olhos em fúria, as lágrimas vertendo. Gritava pela casa que aquele não era seu filho, que odiava o dia em que ele viera ao mundo, que, se pudesse, matar-se-ia de remorso.
E aquilo, de certa forma, começou a importuná-lo. Começou a perceber que já tinha atenção suficiente. Sim, já a tinha. Agora, finalmente, poderia…

O poderia permaneceu no tempo verbal em que merece permanecer para sempre.

O homem deu um tiro na cabeça.

O garoto já tinha dezoito anos nessa época. Pode-se perceber a gradatividade da coisa. Não lançou uma única lágrima no velório. Jogou-lhe um lírio no enterro.
Quando encontrou-se sozinho, começou a remexer os dedos incontrolavelmente, os pensamentos voavam por sua cabeça. Então chorou. Quase um crocodiliano. Respirou fundo e foi até a penteadeira. Passou o batom fortemente por todo o rosto, pela testa, pelo nariz, pela boca. Emplastrou-se de perfume francês. Colocou o vestido de sua mãe mais curto e foi até o espelho.
Olhou fixamente para dentro dos seus olhos e disse:

- Por quê? Porque tu é um gay de merda.

Uma mentira, repetida muitas vezes, pode tornar-se verdade. Uma mentira, dita por alguém que nunca mais poderá desmenti-la, é, de fato, uma verdade absoluta.


Sonhado por Priscila Blake às 8:11 pm.
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pensamento. >> June 17, 2008
In Contos

Sorvete seria ótimo agora. Mais uma crise gelada. Uma crise gelada de chocolate. Que delícia. E eu que prometi que não me iria importar! Aliás, eu que achava que não me importava. Que coisa, não? Em um momento as coisas significam absurdamente nada para você, mas basta piscar os malditos olhos que o apego já é imenso e você está com um grande problema. Um problema sentimental, ora. Quando você simplesmente sabe de toda a verdade, puríssima, inteira, total, e vem aquela pessoa infeliz, ah como é infeliz, e cospe-lhe completa na cara.
A verdade é que falamos demais. Concordo plenamente. Falamos o que não temos que falar, apenas porque temos a necessidade de fazê-lo. Incrível. E quando descobrimos que o que fizemos não foi boa coisa, começamos a jogar argumentos, de fato (quanto paradoxo!), falaciosos. Mas então, meus caros, a merda já está fedendo. Nós já magoamos a pessoa, já concluímos que a nossa opinião é a incógnita da questão. Somos os melhores bundões do mundo.

Mas para que a distância? Por que precisamos tirar as conclusões? Não podemos entender, ao menos um pouco, um mínimo pó, que não sabemos de tudo que se passa com o outro ponto que está na reta?

Mas o “outro”, e são milhares desse estirpe, também não é inocente. Ele nutre a mágoa. E ele distancia-se ainda mais de você. Porque, às vezes, a verdade falaciosa era verdade verdadeira (uau, agora faço uso do caríssimo pleonasmo).

Não tenho conclusões a respeito disso. Nunca tive e nunca almejei ter. Apenas queria que as pessoas fôssemos (silepse, you know?) um pouco menos orgulhosas e egoístas. Porque o nosso umbigo é algo realmente lindo, foi de lá que viemos etc, mas há outras coisas no mundo, tão mais belas…

Além disso (como adoro unir parágrafos e assuntos!), a hipocrisia latente tem-me incomodado muito. Cansei. Queria que, em apenas um segundo, todos tirássemos as máscaras e fôssemos para um baile à realidade. Seria tão mais… real? As pessoas dançando ao lado de suas ideologias ainda-não-tão-formadas, acreditando no que querem acreditar, admitindo sem o medo, sem o medo de nada, contornando, em passos rápidos, a mentira que apenas cega.
Isso seria uma utopia, certo? Certíssimo. Mas sonhar é o guia para fora da caverna de Platão. Ver o que está mais além das sombras é o primeiro salto para sermos nós mesmos. Para não mentirmos, para admitirmos o erro. E, poha, como é difícil admitir e fazer o que é moralmente e relativamente correto. Odeio relativismos, mas aceito o que o é. Porque a ética dentro de mim grita por justiça sem punição, sem dor, sem ódio. Uma justiça verdadeira, ideal, nunca mentirosa.

A ética dentro de mim grita amor! Porém é difícil doar-se com essa distância. Com essa ponte quebrada que foi criada entre mim e o resto do mundo.

Tenho um medo terrível: o medo de que eu esteja adaptando-me à crueldade. E, agora, escrevendo, entendo o que tanto me aflinge. É a realidade que criamos, não a realidade que deveria ser real.
Eu estou começando a enxergar o mundo, as pessoas, as coisas, os sentimentos, os fatos, como não enxergara antes.

E isso dói. Ah se dói.

Porque a utopia desfaz-se.
Desmantela-se.
Acostuma-se.

Até que desaparece eternamente.

Not yet, my friends. Not yet.


Sonhado por Priscila Blake às 4:22 pm.
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Digitais adormecidas. >> June 11, 2008
In Contos

Não deveria estar ali. Mas simplesmente estava. E agora era inevitável. Uma vez sentido o gosto da amargura, ele torna-se eterno em seus lábios. Não conseguia nem ao menos piscar, com medo de perder algum detalhe mínimo, algum movimento surpresa, mesmo que estivesse a uma distância absurdamente infinita. Os óculos de sol estavam escondendo seus olhares furtivos para o resto do mundo que passeava pelas ruas despreocupado. 

O taxômetro marcava mais de cinqüenta reais. Porém não fazia diferença. Ela poderia ficar ali por séculos, mordendo os lábios, apertando o revólver que estava contido dentro de um pano negro de veludo. Como ela era clichê! E sabia disso. Uma mulher de meia idade, enciumada, planejando encontrar o marido em flagrante e matá-lo com a amante de vinte anos, loira e gostosa. Sentia tamanha repugnância disso, tal como seu orgulho pedia para ela sair dali imediatamente, voltar para casa e pedir o divórcio.

Mas a descrença não lhe permitia fazê-lo. Não, não! Por mais que as evidências fossem claras, claríssimas, ela precisava ver, cheirar, sentir o poder da traição e do desapontameto. Porque era isso que a movia até ali. Aquela incerteza tão certeira! Ah, como desejava ser mais jovem, mais bela e mais segura de si. Lembrava-se dos primeiros anos de casamento, quando tudo era eteno, eu te amo e morrerei ao seu lado. Ela realmente acreditou naquilo tudo. Por que não acreditar quando se tem o mundo aos seus pés, uma paixão indefinida e uma beleza invejável? Por que não, meu deus? 

Agora era o reflexo da realidade descoberta. Não só neste momento, mas já há alguns anos. Obviamente, a quebra dos sonhos é gradativa, na maioria das vezes, como em seu caso. Mas há o tipo horrendo, que, com apenas uma pancada, quebra-se em migalhas. Talvez este último às vezes seja o mais justo, mas é certamente o mais doloroso.  

O taxista nada falava, porém sentia a deteminação da mulher misteriosa. Pensava que, se não fosse ainda apaixonado por sua esposa falecida, talvez ficasse encantado com o jeito desta bela senhora. Não olhou, não ensinuou, não mexeu a cabeça: devia pôr-se em seu lugar de empregado, naquele momento. Parecia-lhe que sua passageira não estava muito para palpites ou confabulações para passar o tempo, tempo este que ele próprio não sabia para que estava sendo gasto. Suspirou.

Estava tão nervosa que tinha tiques de cinco em cinco minutos. Cruzava e descruzava as pernas. Grudava o nariz ao vidro. Sentia a vontade louca de gritar suas pétalas queimadas para que todos pudessem entender seu sofrimento antecipado. Mas nada poderiam fazer. Nem um pouco. Não foram eles que seguiram os maridos, logo de manhã, com a desconfiança fluindo por todo o corpo, não eram elesque estavam dentro de um táxi, esperondo algum sinal de…

E o sinal veio. Veio potente, como a luz. Ela apertou com mais força o pano de volume fortemente marcado por suas unhas. Os olhos, mais abertos do que nunca, estavam tão claros como a água mais limpa do oceano; E ela engoliu o sal, ah, se o engoliu.  Com areia, conchas e o que mais viesse. A água inteira, todos os mares entraram por seus olhos e foram fundir-se com o coração. Ela encostou na porta do veículo. Ia sai de lá, rapidamente, enfiar duas balas naquele maldito e ser presa logo depois, porque não teria coragemde tirar a própia vida de merda.

- Senhora?

Ela estava parada lá há duas horas, a mão ainda na porta, as unhas ainda rasgando o veludo. Os olhos abriram-se de repente, como se fugitivos de um sonho. Respirou fundo. Não ia chorar. Não agora. Não, já passou. Acabou. 

- De volta para o lugar em que me buscou, sim? 

O taxista obedeceu. Puro instrumento fático. A casa aproximou-se, o sentimento nela foi surgindo. Agora assim era o desgaste da comprovação. A pílula da falta de coragem e suicídio interno. 

Abriu a porta do lar. Ele estava sentado no sofá, fazendo seus cálculos. Olhou para ela e sorriu. Ela soriu de volta. Por onde esteve, meu amor? Ah, amor. Seu amor sou eu? Beijou-lhe na boca. Foi para o quarto, guardou o pano aveludado e passou a mão pela gaganta, como se fosse capturar o grito preso dentro de si.

Adormeceu uma e acordou outra. Agora, sim, tinha a certeza que corrói: [sobre]viveria em paz.

 


Sonhado por Priscila Blake às 2:24 pm.
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In Contos

E lá estava ela. O vestido apertado ao corpo, longo, muito longo, quase encostando no chão de mármore. O cabelo preso em um rabo de cavalo delicado, as unhas grandes, pintadas de rosa-claro. Encarava-me profundamente como se eu tivesse a resposta para todas as suas perguntas. Respostas desnecessárias, eu sabia, pois todas as perguntas eram inúteis. Algumas vezes ela levanta a mão até a altura da boca, como se fosse roer as unhas, mas abaixava-a segundos após, lembrando-se que iria quebrar a perfeição de seu corpo inteiro. E como ela era perfeita!

Era a mulher que eu mais amara durante toda a minha vida. E eu nunca fui muito de amar, não o suficiente para ser considerado amor. A verdade é que o tempo passa, o sentimento é consumido, os verbos são conjugados e o costume torna-se doentio. Tudo que eu sentia agora era oriundo de profunda admiração e nojo. Duas coisas essenciais para olhar aquele par de óculos e querer quebrá-lo em pedaços, para que ela nunca mais o ajeite com aqueles dedos compridos e delicados. Pois, ao quebrá-lo, quebro-lhe também as mãos. E, ao quebrar suas mãos, quebro-lhe toda vida de escritora.

Ela continuava a olhar-me, com aqueles olhos famintos, o sorriso enviesado. Às vezes eu queria desesperar-me o suficiente para queimar-lhe a face com o café quente que repousava ao nosso lado. Mas eu não conseguia. Não, era tudo tão forçado, eu abria o jornal, fingia entender as palavras que estava lendo, e ela, ah ela!, estava observando-me para colocar a minha dócil personalidade mentirosa em um de seus contos filosóficos que eu tanto odiava e repugnava.

Açúcar. Ela perguntou-me se havia mais açúcar. Intriguei-me, pois ela sempre gostara de tudo tão moderado, inclusive, é claro, das palavras. Foi absolutamente dócil e surpreendedora, por favor, mais açúcar. E eu fui, solícito, até a cozinha, buscar o pote açucarado. Quando voltei à nossa varanda com vista para o mar, ela estava lendo o jornal exatamente na página de horóscopos, situação que deixou-me deveras constrangido, pois, na verdade, era a página em que eu estava tão concentrado anteriormente. Ela ironizou com os olhos, mas nada disse. Pegou o pote.

Extremamente compenetrada, colocou uma, duas, três, quatro, quinze colheradas de açúcar em seu café. Minha sombrancelha levantou-se e fiz menção de perguntar que absurdo era aquele que se sucedia, mas ela levantou-se imediatamente com a xícara na mão e foi até o meu lado.

- A vida é tão amarga, não acha? - Quase um suspiro em meus ouvidos, um sorpo de vento delicioso.

- Às vezes -  o impulso levou-me quase a perguntar por que diabos ela estava-me dizendo aquilo e porque tinha uma xícara com mais açúcar que café na mão.

Sempre fui controlado demais. Nunca, nunca disse o que realmente pensava. Se pudesse soltar as palavras, naquele momento, gritaria que ela estava enlouquecendo, que eu a odiava por ter roubado de mim o que mais amava. Não mais conseguia sentir por ela o que inicialmente sentia. Eu quase a odiava completamente. Ela era uma sombra em meu jardim, o vampiro de minhas idéias. Fazia-me consumir quase três maços de cigarro por dia em troca de imaginação alguma.  Sim, ela era a âncora de meus pensamentos. Maldita!

- Você não acha que deveríamos pôr mais açúcar em nossos laços, em nossas vidas, em nosso amor?

Amor? Não, querida, não há mais amor. Eu amava-a porque era genial amá-la, assim como suas palavras consumiam meus olhos tristemente. Você era parecida comigo em tantos aspectos que me encantei com a impressão de não estar sozinho no mundo, de ter a compreensão da realidade unitária. Não obstante, você estagnou, literal e literalmente, minhas palavras. Durante todos esses anos não consigo mais escrever como escrevia, pois lá está você, pedindo-me conselhos sobre que idéia usar, como usar e não deixando-me respirar, em momento algum, as idéias que surgiam na minha mente.

- Gosto da vida azeda. A vida doce demais enjoar-me-ia - pisquei levemente os olhos ao proferir essa frase.

Ela assustou-se, definitivamente, pois sua expressão facial alterou-se, coisa que raras as vezes deixava acontecer. Mordeu os lábios levemente e, surpreendendo-me, atirou a xícara de porcelana na parede. Espatifou-se e o açúcar espalhou-se no chão. Algumas lágrimas caíram de seu rosto, enquanto ela involuntariamente corria para o quarto para pegar suas coisas importantes e socar tudo dentro de uma mala. Ela havia percebido tudo que eu queria falar-lhe em apenas uma frase metafórica. E como meu coração palpitou de alegria.

Voltou-se a mim, com um livro de capa vermelha entitulado “Ele” e com duas alianças, com nossos nomes grafados em cada uma delas. Largou-os na mesa e saiu porta afora.

Hoje à noite, quando terminei de ler o livro, senti o peso do que havia feito totalmente em cima de minha consciência. As alianças, coloquei-as dentro de outra xícara, com muito açúcar e despejei tudo na areia em frente à minha casa. Chorei um pouco e gostei de chorar. Há muito tempo não chorava. E era delicioso sofrer. Ah, se era.

Peguei um lápis e um papel e comecei a escrever.

- Como é amargo ser livre.


Sonhado por Priscila Blake às 3:01 pm.
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algema real. >> April 7, 2008
In Contos

Tirou bruscamente a pulseira prateada que envolvia seu pulso, como se aquilo a fosse libertar, de alguma forma, do passado eminente. Jogou-a contra a parede e, como em câmera lenta, viu-a cair como água até pousar no chão. Agarrou-se aos joelhos e ficou encarando a jóia morta, desmaida, indefesa, que repousava como um corpo desesperado na madeira.
Pronto. Estava feito. Ninguém mais poderia julgá-la. Não, não agüentava mais as faces das pessoas quando chegava no trabalho: Oh, coitadinha… veja lá, ainda não conseguiu, mas probrezinha, foi tão de repente, é, e com pouquíssimo tempo, não acha? Não conseguiu ainda desfazer-se totalmente…
E que raiva que sentia dos olhares de pena! Do restaurante de portas sarcásticas à sua entrada, da praça com ar de solidariedade. Ela não queria nada daquilo, maldição! Apenas precisava ficar sozinha, sem sentimentos alheios, por um tempo, apenas um tempo, sabia que conseguiria socar tudo isso por terra a dentro e ir ao funeral de seus pensamentos e lembranças.
Hoje, definitivamente, ela não usaria mais essa maldita pulseira. Ficaria ali, estirada no chão, durante quanto tempo fosse preciso, até que ela tomasse coragem para tocá-la. Porque o sacrifício já fora imenso apenas para arrancá-la do pulso e vomitá-la até a parede. Talvez nunca mais conseguisse encostar os dedos ou nem mesmo olhar para aquela parte de seu quarto. Pensando bem, não sabia por que tivera a idéia de tirá-la dentro de casa. Poderia ter sido mais esperta! Jogado-a na rua, no mar, no céu, quem sabe. Ah, mas é claro que não! Para quem está mentindo? Ela planejou tirá-la ali, exatamente ali. Não teria a mínima coragem de tirá-la em outro lugar longe de si.
Por que, perguntava-se todos os dias, ele lhe dera uma pulseira tão em chamas, e não um simples anel dourado? Ah, que ele sempre era singular! O primeiro beijo havia sido embaixo da mesa de sinuca, quando ela desajeitadamente havia-se abaixado para apanhar a bola vermelha. Ele foi tão rápido quanto uma raposa, fingiu esbarrar nela e cair inocentemente sobre os seus lábios doces como acrimel, como assim ele costumava descrever. E quanto ao pedido de namoro! No ônibus, por deus! Ele pediu atenção de todos… e, de repente, estava ajoelhado com uma margarida amarela gigante, dizendo que uma Rosa era seu girassol, e que essa flor dupla sempre fazia-o girar e girar e girar.

Ficou tonta.

Era realmente merecedora de pena, pensou. Mal lembrava-se dos momentos e já se colocava a chorar desesperadamente, como uma criança indefesa. O sentimento que possuía neste momento era deveras de desprotegimento total. Não sabia o que ia fazer com aquela pulseira maldita, não sabia o que ia fazer com as vinte e sete cartas dentro da gaveta e nem com os malditos porta-retratos quebrados, que espalharam milhares de pedacinhos de vidro pela casa. Andar sobre migalhas afiadas não seria tão ruim, afinal. Não era o que vinha fazendo durante os últimos cinco meses?

Ele simplesmente apareceu [coincidentemente no dia em que ela acabara de descobrir algo que pensou ser a notícia mais feliz do mundo] com os olhos piscando demais, coçando um pouco mais do que o normal o corpo, ajeitando os óculos impetuosamente. Correu até ela e jogou-a no sofá, ela sorriu, a boca abrindo-se para a notícia!

- Eu e você… - os lábios quase tocando-se.

- Eu não te amo mais, - deixou exatamente uma vírgula eterna.

Ele falou. Ela calou-se. Tudo que escutou depois foi que ele vinha buscar as coisas no dia seguinte, estava indo para a Europa com a Vivian, aquela pintora e escritora que ele tanto admirava e que não cansava de falar sobre nos últimos meses. Ela não conseguiu chorar. Não, não enquanto ele estivesse ali. Para quê? Vai, vai embora.

Cinco meses depois ela conseguiu livrar-se da pulseira. Mas não do vínculo até a morte que carregava dele dentro de sua barriga. Era exatamente por isso que ninguém conseguia entender o porquê de ela não querer falar nada para ninguém, o porquê das férias adiantadas, se todos achavam que ela precisava mais é conhecer pessoas e não prender-se dentro de casa.
Então para que dar-se ao trabalho de queimar todos seus rastros se não poderia recomeçar sem ele, sem uma parte de seu rosto, seus traços, seu gene, acompanhando-a para sempre?

Não queria saber. Levantou-se, sem olhar para a pulseira e caminhou para a porta da frente. Pensou em ir comprar talvez uma fitinha, que cobrisse a nudez pura do seu pulso. Quem sabe encontrar novas pessoas, com novas idéias, idéias singulares e novos lugares onde pudesse recortar o passado, retalhar o presente e fazer do futuro algo novo.

Bateu a porta e respirou o dia, com a mão levemente acariciando a barriga.


Sonhado por Priscila Blake às 7:31 pm.
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simples complexidade. >> April 1, 2008
In Contos

Não conseguia entender o que era tudo, quem ela era e quem nós somos. Não, definitivamente não. Estava cansada de fingir que sabia das coisas, mas por dentro ver e tocar o verdadeiro desconhecido, os porquês, os motivos, a relatividade de seu corpo e de sua alma.
Queria saber por que tinha essa tão impetuosa indiferença, esse não querer e fazer forçado, uma vida sobrevivida, um meio apenas para nicho ecológico. E às vezes perguntava-se qual era sua função, qual era a função do céu e do sinal de trânsito, então. Este último tinha como obrigação impedir a morte de pessoas, acidentes e surtos, mas para quê? Por que ter apenas três cores se a vida depende de milhares delas? E o que ela estava fazendo sentada ali, com as pernas para fora da ponte, olhando metros abaixo o trem das sete passar?
Enrolou os fios de cabelo com a mão e balançou o pé. A idéia estúpida de tentar voar para ver como é passou por sua cabeça, riu logo após, um sorriso enviesado, quase encorajador. Vamos, o que você está esperando? Sinta o ar em você, entrando em seus pulmões, sinta a força da gravidade e… o alimento em vermelho dos trilhos. Cuspiu e voltou a divagar.
Sua cabeça girava, somente de olhar para o horizonte, que se encontrava como uma fumaça muito vasta e escura, juntando-se com o doce cheiro urbano. Ficou enjoada. Por que ela ainda não conseguia levantar-se? Era difícil forçar a obediência das pernas, quando estas queriam descansar e não ouvir o barulho surdo de sua casa. O mundo é realmente engraçado: possui milhares de pessoas, mas apenas uma encontrava-se em uma ponte sozinha a balançar os pés. Onde estavam todas as outras? Jantando em casa, ouvindo música, dormindo, morrendo… mas onde estaria a real ligação?
Levantou-se bem devagar e acendeu um cigarro. Tão nova e já viciada. Os vícios carnais, reais e fatais são os melhores. Ter um vício na alma é muito, muito pior. Ela fumava não pela necessidade da droga, mas por que gostava de ver a fumaça saindo de sua boca e ir subindo, subindo, subindo até desaparecer completamente e misturar-se às nuvens. Que idéia! Como poderia estar apaixonada pela união e perda total de si mesma no céu?
Desceu a ponte até a ruazinha tão doce de Santa Teresa. As pessoas preparando-se para montar suas barraquinhas, agitadas, correndo, olhares ávidos e tristes. Sentiu pena e suspirou. Será que essas pessoas descansavam, pensavam sobre para onde tudo vai e para onde tudo retorna? Não a mulher com olheiras tão espessas que com elas chorava.
Chegou ao sinal. A maior rua da cidade, ela atravessava-a uma vez por mês, quando decidia ver o trem correr para seu objetivo. Verde: os carros passando, as pessoas olhando os relógios de pulso. Tentou forçar os olhos míopes para ver quem estava do outro lado. Sacudiu a cabeça. Não podia ser: quanto mais apertava os nervinhos dos olhos, mais se convencia de que estava olhando para ela mesma, do outro lado da rua. E não apenas isso, mas estava vendo o seu lado exato refletido no outro lado, todas as pessoas que estavam aglomeradas em sua ponta estavam também na outra ponta. Só poderia estar sonhando.
Sinal amarelo: metade.
Sinal vermelho: os transeuntes começaram a andar para o seu rumo. E lá foi ela, pasmada, assustada e ansiosa. Ao olhar para seus lados, percebia as pessoas de um lado passando por dentro de si mesmas opostas e, após isso, tornavam-se almas e corpos diferentes. Cada um indo em uma direção. Parecia que, passado o toque e a passagem, voltavam a ser o que eram, ou talvez o que se tornaram.
Sua vez havia chegado: foi de encontro ao seu eu e sentiu o corpo tremer no momento em que se tocaram com a ponta dos dedos e foram atravessados. Respirou profundamente e pareceu compreender o todo completo.

Quando olhou para trás, a mulher de cabelos compridos e ruivos, os olhos penetrantes e o rosto desconfiado, estava olhando em sua mesma direção com uma expressão de questionamento: mas por que o esbarrão, menina?

Voltou a olhar para frente e soprou mais uma fumaça, deliciada.


Sonhado por Priscila Blake às 5:33 pm.
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Tudo engana. >> March 18, 2008
In Contos

Ela sorria demais. Por que eu não sabia, apenas via todos os dias na sala de aula aqueles dentes para fora, dentes que elucidavam a felicidade por completo. Sentia a vontade louca e egoísta de empurrá-la pela janela, bater com a sua cabeça na parede ou sufocá-la com pó de giz, qualquer coisa para aquele brilho de alegria cessar de minha frente. O que eu sentia não era inveja por euforia alheia, mas desprezo e raiva. Eu sofria demais com meus devaneios, meus pensamentos pertinentes invadiam minha consciência e às vezes lágrimas afloravam no meio da aula de cálculo. Primeiramente, eu tinha dezoito anos e estava perdida, sem rumo, em uma faculdade de matemática; não sabia se era realmente aquilo que eu queria. Mas definitivamente eu era racional. Até demais. Trabalhava em uma loja de um shopping à tarde e à noite, e morava em um apartamento dividido com uma hippie drogada. Meus vizinhos tocavam funk até tarde, e eu precisava acordar cedo toda manhã e estudar quando chegava em casa. Além disso, havia os pensamentos, os mais horríveis e niilistas possíveis, a depressão urbana me tomava por completo [eis o pior, meus caros]. Eu suportava o sistema.

Onde eu estaria?

E, bem, precisava agüentar uma idiota saltitante sorridente com personalidade caída à perfeição. Todos os dias era a mesma coisa: ela chegava, e chegava mesmo, cheguei. Falava com todas as pessoas, cumprimentava e, arre, sorria. Era loira, os cabelos delineando seu corpo, estatura mediana. Admito: encantadora. Porém, o tipo exato de pessoa que eu evitava. Aliás, eu evitava muitos e muita coisa.

Em uma quarta-feira, ela veio falar comigo.

- Oi! Suzannah, não é? - sorriu. sorriu. sorriu.

- É. - voltei a abaixar a cabeça. Eu havia recebido uma ligação naquele dia: minha mãe estava hospitalizada. Mas eu já esperava, a vida passa, eu sei.

- Está tudo bem? Você parece meio abatida hoje… - ela dobrou a cabeça para o lado, estupidamente.

- Quem é você para saber como estou ou não? Você nem mesmo me conhece. - falei isso tudo rapidamente, mal senti o movimento dos lábios. Explodi.

- Eu… apenas fiquei preocupada… não quis ofendê-la, desculpe, Su..

- Escuta, garota, se liga! Você não sabe nada da minha vida, sua ridícula, acha que a vida é feita de flores? Espera, o que é teu tá guardado. - levantei-me e saí, meio deprimida, meio raivosa, e fui chorar no banheiro.

O tempo passou, não me arrependi do que disse; ela todos os dias fazia o mesmo ritual. Entrava, balançava um pouco os cabelos, mordia os lábios pintados de rosa-claro, beijava as pessoas. E sorria. E aquele sorriso me rasgava por completo. Como ela podia ser tão feliz no meio disso tudo, dessas coisas que passam pelos olhos rapidamente e já sugam água, desses pensamentos que chegam impetuosos e carregam todos para a escuridão completa, como?
Eu não sabia e não queria saber. Até um dia.
Há sempre dias que marcam a vida. E esse me marcou, definitivamente.

Ela chegou, sorriu. Sentou, sorriu. Quando estávamos no meio de uma aula absurdamente chata, olhei para ela e… o quê? O quê, como ocorreu? Foi tudo muito rápido. Não, não sorria. Pelo contrário: vi uma lágrima rápida e singular escorrer por seu rosto e também a vi secá-la o mais rápido possível e levantar para ir ao banheiro. O que fora aquilo? Quando ela voltou, estava com o mesmo sorriso estampado no rosto. Fiquei confusa. E com raiva, muita raiva. Não sei exatamente de quê, mas apenas a senti fluir.
No dia seguinte, não conseguia parar de pensar naquela lágrima. Decidi que ia segui-la quando ela fosse até o banheiro, já que, agora passei a reparar, ela ia todos os dias, em quase um mesmo horário programado. Ela e aquele sorriso.

Estava no corredor, sorrateira, seguindo até o banheiro. A porta acabara de ser fechada, quando a abri novamente e vi algo que me arrependo até hoje de ter visto, pois invadi uma parte de uma pessoa que não deveria nunca ter invadido sem sua permissão: estava apoiada na pia, um dos braços no estômago, chorando desesperadamente, vomitando e respirando fundo.
Soltei uma exclamação e ela se virou imediatamente para olhar:

- Su… Suzannah… não, eu só estou… - voltou a vomitar.

E eu me perguntei por que ela estava tentando desculpar-se.
Fiquei sem ação. Saí imediatamente do banheiro e sentei, encostada na parede em frente à porta. Esperei.
Enfim, ela saiu, sem nenhum sinal de abatimento, exceto até olhar para o meu rosto sério e questionador.

- Eu ando meio enjoada ultimamente. Nada sério. Desculpe.

- E por que chorou na sala? - meu Deus, que direito eu tinha de questioná-la assim?

Ela mordeu os lábios. Começou a chorar novamente. Eu não sabia o que fazer, puxei-a para um lugar reservado e exigi respostas apenas com meu olhar.
Desde então eu soube o quanto eu fora ridícula. Ela estava tentando seguir a vida, passar por todos os obstáculos, tentar não pensar. E, principalmente, não colocar todos dentro de sua tristeza. Totalmente o oposto do que eu fazia. E como eu me sentia egoísta.
Ela estava com câncer terminal. Não adiantava nem mesmo fazer radioterapia, descobriram tarde, tarde demais. Mas ela não queria deixar de viver. Queria continuar, sentir a vida, ser feliz. Ou ao menos tentar sê-lo.

Hoje estou em seu enterro, e de alguma forma sorrio, mesmo com essas lágrimas incessantes caindo em minha pele. Aprendi e amadureci com essa menina, e me sinto extremamente grata.

Sorrio, pois sei que é isto que ela faria neste momento.


Sonhado por Priscila Blake às 6:24 pm.
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